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Crônica
Em Torno da Malbec
Sérgio de Paula Santos
 Paradoxalmente, dois dos símbolos mais emblemáticos da Argentina não são originários do país: o bandoneon e a variedade de uva Malbec. São estrangeiros, mas adaptaram-se muito bem no Prata.
O bandaneon, variação da concertina, apareceu na Alemanha perto de 1840, fabricado por Heinrich Band ­–e por antroponímia, bandoneon. Chegou ao Rio da Prata, a Montevidéu, em 1862, com o ferreiro suíço Schumajer. A Malbec, originária do sudoeste da França, da região de Cahors, a 150 km de Bordeaux e 70 km de Toulouse, chegou ao país antes, em 1853, pelo Chile.
Como provocação, pode-se dizer também que o próprio tango não é argentino, é porteño, música originária dos portos (e dos bordéis) de Buenos Aires e de Montevidéu. Não é por acaso que o mais conhecido dos tangos, a Cumparsita, seja uruguaio. Mas nosso tema é o vinho.


Rio de vinho
Chile, do Maipo ao Maule
Homero Sodré Filho
Visitar as regiões chilenas é sempre uma oportunidade para renovar conhecimentos e descobrir caldos interessantes.

Quando desembarcamos em Santiago, há uns dias, para mais uma rodada de provas e visitas, nos demos conta de que já conhecemos, ao longo dos últimos dez anos, mais de vinte Viñas transandinas, algumas delas visitadas mais de uma vez.

Não é muita coisa, face às duas centenas de produtores existentes naquele país, mas ajuda a entender os caminhos e tendências do mais importante vinho sul-americano, o chileno!.
Sim, porque mesmo com todo avanço qualitativo dos argentinos, uruguaios e brasileiros, os rótulos do Cone Sul mais presentes nos mercados do Primeiro Mundo são os chilenos.

Com justiça, pois partiram à frente no estudo e desenvolvimento da vitivinicultura de qualidade e na abordagem profissional do mercado.

E o que faz o Chile hoje? Aprimora seus produtos e dedica-se fortemente à identificação de seu rico terroir, relocando a produção de castas para os micro-climas mais adequados às suas características, de forma a obter o máximo de qualidade nos vinhos produzidos, para galgar mais degraus na escalada do sucesso mundial.

Circular por Santiago ficou muito mais fácil de uns meses para cá. Entrou em operação a Costanera, via expressa subterrânea sob o rio Mapocho, que nos leva rapidamente do aeroporto ao imponente distrito financeiro e seus modernos arranha-céus, propriamente chamado pelos locais de Sanhattan (numa junção de Santiago e Manhattan, famoso centro financeiro dos EUA).

Há também novos templos gastronômicos: o Emilio e o C, dois modernos restaurantes no Borde Rio, que são a atual sensação para os gourmets santiaguinos.

O curioso é que predomina a culinária peruana, como já acontece no badalado e ótimo Astrid & Gaston.

Parece que, na cozinha, os chilenos ainda não encontraram o caminho da evolução, como nos vinhos. Aliás, o grande mico em Santiago é comer nos bares do outrora atraente Mercado Central.

As centollas vêem-se só por fotografias e os salmões nadam em óleo rançoso!

Made in Brasil
Um Sucesso Escrito com Vinho
Sérgio Inglez de Sousa

Antônio Domenico Salton, agricultor sem terras da vila vêneta de Cison di Valmarino, casado, acompanhado de um filho chamado Giovanni Francesco e a mulher grávida, resolveu tentar o futuro no Brasil.

No porto de Gênova, o bebê e a mulher morreram no parto, fato que não o fez desistir dos planos originais.

Com um filho ainda menino, atravessou o interminável oceano e chegou ao Rio Grande do Sul, estabelecendo-se na colônia Dona Isabel. Ali casou-se com Lúcia Canei, que lhe deu onze filhos.

Adquiriu o lote urbano 17 e tratou de construir uma casa e iniciar plantações para o sustento da família. Obedecendo a suas origens, plantou parreiral de Isabel, que lhe garantiu a alegria diária de um copo de vinho.

No raiar de 1890, o vinhedo de Tuiuty oferecia produção suficiente para consumo da família e, adicionalmente, para comercialização na vizinhança. Surgia a figura dos Salton, comerciantes de produtos coloniais, inicialmente pelos arredores e mais adiante, para fora dos limites da colônia.

Esta evolução obrigou-os a mudar para o centro de Bento Gonçalves, numa casa de madeira defronte à igreja de Santo Antônio, onde operavam Casa de Pasto, uma espécie de armazém de secos e molhados, onde também se serviam refeições.

Antônio quitou as prestações da casa com o trabalho de toda família: seu filho Giovanni Francesco mascateava tecidos, de lote em lote Ângelo, tanoeiro, fabricava barricas e corotes, Paulo era carreteiro da Casa Balistta e Luiz, com outro carretão puxado por mulas, fazia fretes para terceiros.

O grande quintal da loja, em Bento Gonçalves, tornou-se um parreiral com várias castas de uva, dando origem aos primeiros vinhos Salton.


Conexão Portugal
O Vinho do Porto e o Hino Nacional
Carlos Ernesto Cabral de Mello
O hino nacional brasileiro vem há muito tempo disputando com a Marselhesa, o francês, o título de canção patriótica mais bonita do mundo.

Ambos possuem musicalidade exuberante, prosódia perfeita, são rítmicos e cadenciados, autênticas marchas que colocam um patriota em pé, ao mesmo tempo em que afloram as emoções à pele!

O hino brasileiro tem letra singela, pueril e alegre, conta as belezas da terra, mas não se esquece de exaltar os valores cívicos e pátrios.

A Marselhesa é uma bela marcha de guerra, que conclama o povo a lutar pela sua liberdade. São essas grandes diferenças entre os dois cânticos.

A música de nosso hino é de autoria de Francisco Manuel da Silva, composta em 1831, portanto no Segundo Império, e a letra criada pelo poeta Osório Duque Estrada em 1909, sendo oficializada em 1922, quando das comemorações do primeiro centenário da independência do Brasil.

Logo após a proclamação da República, em 15 de novembro de1889, a bandeira brasileira foi alterada, bem como as armas nacionais.

Mas e o hino? O povo demonstrava claramente ser contra a mudança da música, ainda não letrada, enquanto os republicanos de carteirinha eram simplesmente opositores a tudo que lembrasse a monarquia.

Eram tempos de mudanças, mas o hino nacional resistiu a elas.
No dia 15 de janeiro de 1890, dois meses após a instalação do novo regime, o governo do marechal Deodoro reuniu-se no antigo palácio do Itamaraty.

Entre outros, estava presente o ministro da Fazenda Rui Barbosa, discutindo com todo o ministério a primeira crise desse mandato, acerca de hoje habituais problemas econômicos! O povo e as tropas militares apinhavam-se na frente do palácio para prestar seu apoio aos novos governantes e Deodoro, vez por outra, ia até a sacada para saudar a multidão.

Em um desses momentos, segundo relato publicado na "Revista Ilustrada" de janeiro do mesmo ano, ocorreu um fato curioso.

In vino veritas
O Nome do livro
Luiz Groff
É verdade que no Brasil temos poucos vinhos, mas verdades, temos muito menos. Não por acaso resolvi dar o nome “In vino veritas” ao meu novo livro sobre vinhos, uma coletânea das crônicas publicadas na Vinho Magazine sob esse mesmo título.

(Versão sem cortes, com exceção dos Châteaux de Bordeaux).
Meus outros livros de vinhos incluíam as crônicas publicadas num jornal de Curitiba. Entretanto, nos últimos anos, a Redação do jornal, em nome da notícia objetiva e da economia do espaço, foi espremendo meus textos até torná-los completamente sem graça.

Aliás, o progressivo adelgaçamento da coluna me fez criar um slogan que, de tão sutil, não foi percebido pelo jornal e, temo, nem pelos leitores: “Curta Invinovéritas cada dia mais curta” (vírgulas à vontade).

Finalmente, certo dia o jornal cancelou as crônicas, provavelmente porque tinham ficado pouco divertidas, argumento com o qual não pude deixar de concordar.

Esse livro se divide em duas partes, “Vinho com Humor” e “Vinho com Bom Senso”.

Duas faces do mesmo prisma, a crítica à ridícula pretensão daqueles que fingem que a degustação é uma ciência exata se faz pela argumentação sensata, quando argumentos há, ou pela ridicularizarão irônica, quando não há o que alegar.

A degustação não é uma ciência exata, aliás, nem sequer é ciência. Aqueles que, como eu, escrevem humor estão sempre a ouvir aquela frase surrada, hino nacional da mediocridade: “perde o amigo, mas não perde a piada”.

Efetivamente prefiro ter amigos que sobrevivam às piadas, mas o corolário dessa colocação é que também temos de volver nosso humor contra nós mesmos para não incorrer em pecado mortal.

Vino quae sera tamen
O Melhor de 2006
Júlio Anselmo de Sousa Neto

Sempre é bom relembrar os melhores vinhos bebidos durante o ano e sugeri-los aos amigos.

Assim, passo aos leitores a lista dos melhores vinhos que bebi em 2006.

(*Citações: Vinho e/ou Produtor - Denominação de Origem - Safra / Região / País)

Melhores tintos

1.Abadia Retuerta - Cuvée Campanario - Vino de la Tierra - 1998 / Castilla y León / Espanha

2.Afincado - Terrazas de los Andes - Malbec Premium - 2001 / Mendoza - Luján de Cuyo / Argentina

3.Alión - Reserva - DO Ribera del Duero - 2001 Ribera del Duero / Espanha

4.Almaviva - Viña Almaviva - 2001 / Maipo - Puente Alto / Chile

5.Arroba - Carlos Malmaceda - Malbec - 2001 / Mendoza - Lujan de Cuyo / Argentina

6.Arzuaga - Reserva - 1998 / Ribera del Duero / Espanha

7.Ata Rangi - Pinot Noir - 2000 / Martinborough / Nova Zelândia

8.Barca Velha - Casa Ferreirinha (Sogrape) - 1983 / Douro / Portugal

9.Boscaini - Santo Stefano - Vino Ripasso - Vino da Tavola - 1995 / Veneto / Itália

10.Bouza - Cuadro Único - Parcela 6 - Tannat - 2004 / Canelones / Uruguai

11.Bramare de Cobos - Viña Cobos - Malbec - 2000 / Mendoza - Lujan de Cuyo / Argentina

12.Casa de Sabicos - Casa Agrícola Santana Ramalho - Seleção do Enólogo - 2001 / Alentejo / Portugal

13.Castellani - DOC Amarone della Valpolicella Classico - I Castei - Campo Casalin - 1999 / Veneto / Itália

14.Château d'Agassac - AOC Haut-Médoc - Cru Bourgeois Supérieur - 2001 / Bordeaux / França

15.Château Beausejour - AOC Pomerol 1996 / Bordeaux / França

16.Château d'Or et de Gueules
- Cuvée La Bolida - AOC Costières de Nîmes - 2002 / Languedoc / França

17.Château Dufort-Viviens - 2ème. Cru Classé - AOC Margaux - 1994 / Bordeaux / França

18.Château Gazin - AOC Pomerol - 2001 / Bordeaux - Pomerol / França

19.Château Giscours - 3ème. Cru Classé - AOC Margaux - 1994 / Bordeaux / França

20.Château Gloria - AOC St.Julien - 2003 Henri Martin / Bordeaux / França

21.Château Haut-Brion
- 1er. Classé - AOC Graves - 1995 / Bordeaux / França

22.Château Lafite - Rotschild - 1er. Grand Cru Classé - AOC Pauillac - 1995 / Bordeaux / França

23.Château Latour - 1er. Grand Cru Classé - AOC Pauillac - 2001 / Bordeaux / França

24.Château Margaux - 1er. Grand Cru Classé - AOC Margaux - 1995 / Bordeaux / França

25.Château Montelena - Cabernet Sauvignon - 1997 / California - Napa Valley / E.U.A.

26.Château Mouton Rotschild - 1er. Grand Cru Classé - AOC Pauillac - 1995 / Bordeaux / França

27.Château Saint Jean d'Aumières - AOC Côteaux de Languedoc - 2001 / Languedoc / França

28.Château Sociando-Mallet - AOC Haut-Médoc - 2001 / Bordeaux / França

29.Château Sociando-Mallet - AOC Haut-Médoc - 2003 / Bordeaux / França

30.Château Talbot - AOC St. Julien - 4ème. Cru Classe - 1999 / Bordeaux / França

31.Casa Lapostolle - Clos Apalta - 1997 / Rapel - Colchagua / Chile

32.Clos des Papes - AOC Châteauneuf-du-Pape - 2004 / Côtes-du-Rhône / França

33.Cobos - 2002 / Mendoza - Lujan de Cuyo / Argentina

34.Dante de Wet / Nature In Concert - Pinot Noir - 2003 / Robertson / África do Sul

35.De Martino - Single Vineyard - Syrah - 2003 / Colchagua / Chile

36.Ethiène Guigal - Côte Blonde - La Mouline - AOC Côte Rotie - 1997 / Côtes du Rhône / França

37.Ethiène Guigal - AOC Hermitage - 1998 / Côtes-du-Rhône / França

38.Familia Reina - Andeluna - Passionado - Gran Reserva - 2003 / Mendoza - Alto Valle de Uco / Argentina

39.Flecha de Los Andes - Gran Corte - 2004 / Mendoza - Valle de Uco / Argentina

40.Flowers Vineyards - Pinot Noir - 2000 - California - Sonoma / E.U.A.

41.Fonte das Moças
- Reserva - 2001 / Estremadura / Portugal

42.Laborde-Juillot - AOC Givry - 1er Cru - Clos Marceaux - 2001 / Bourgogne / França

43.Lautus - Guelbenzu - Vino de Mesa de Ribera del Queiles - 1999 / Ribera del Queiles / Espanha

44.Marqués de la Contraviesa - Barrica - Vino de la Tierra Contraviesa-Alpujarra- 2002 / Andaluzia / Espanha

45.Matarromera - Reserva - DO Ribera del Duero 2002 / Ribera del Duero / Espanha

46.Miguel Torres - Manso de Velasco - Viejas Viñas - 2003 / Curicó / Chile

47.Miguel Torres - Mas La Plana - Cabernet Sauvignon - DO Penedés - 2001 / Cataluña / Espanha

48.Monteverdine - Vino da Tavola - 1996 / Toscana / Itália

49.Morandé - Gran Reserva - Edición Limitada - Syrah - 2001 / Casablanca / Chile

50.Mouchão - 2001 / Alentejo / Portugal

51.Nicó - Dino Illuminati - DOC Controguerra - 2000 / Abruzzo / Itália

52.Opus One - 1992 / California - Napa Valley / E.U.A.

53.Pintas - DOC Douro - Wine & Soul - 2005 / Douro / Portugal

54.Pulenta - Gran Corte 2003 / Mendoza / Lujan de Cuyo / Argentina

55.Quercecchio - DOC Rosso di Montalcino - 1995 / Toscana / Itália

56.Quinta da Brunheda - Brunheda - Reserva - 2001 / Douro / Portugal

57.Roda II - Reserva - DO Rioja -1998 / Rioja / Espanha

58.Saint Benoit - AOC Châteauneuf-du-Pape - Elise - 2001 / Côtes-du-Rhône / França

59.Stonybridge - Larose - 2000 / Haiheke Island / Nova Zelândia

60.Valdelosfrailes - Pago de Las Costanas - DO Cigales - 2001 / Cigales / Espanha


Outras Histórias
A Puglia e seus vinhos
Aguinaldo Záckia Albert
    Apesar do grande prestígio que gozam as regiões mais setentrionais, o sul da Itália é o verdadeiro berço do vinho no país.

É a esta região que os gregos se referiam quando chamavam a península de Enotria, a “Terra dos Vinhos”, quando ali estabeleceram suas colônias, tal a boa adaptação da videira nesta terra de colinas e planícies de clima ameno.

Essa região mediterrânea, graças à sua posição geográfica de proximidade com o Oriente Médio e o norte da África, sofreu a influência de vários povos e culturas que cruzavam este mar interior, tendo sido a grega a mais marcante.

Esta Itália helenizada era conhecida como Magna Grécia e a influência da cultura grega do vinho sobre ela foi enorme.

Molise, Campânia, Basilicata e Calábria fazem parte dela, mas é a Puglia a região mais importante, tanto pela enorme produção de seus vinhedos, quanto pelo destaque recente que seus vinhos vem merecendo.

A Puglia é o calcanhar e o salto da “bota” que forma a Itália, e se estende por uma faixa de quase 400 km pela costa do Mar Adriátrico.

Seu clima tipicamente mediterrâneo e a composição calcária de seu solo a tornam ideal para o plantio de uvas. Sua topografia é também muito favorável para a grande produção da fruta, sendo em sua maior parte plana.

A área coberta por vinhedos atinge 190.000 ha, e sua produção só se iguala à da Sicília, chegando a produzir cerca de 17% dos vinhos deste país, que é o segundo maior produtor de vinhos do mundo.

A maior parte deste vinho é ainda de qualidade inferior, comercializado a granel ou engarrafado como Vino da Tavola, sendo também muito grande a parcela utilizada para a elaboração de vermutes.

Apenas 2% da produção pode ostentar a expressão DOC, Denominazione di Origine Controllata, em seus rótulos.

O sistema de cooperativas é responsável por 60% dos vinhos da Puglia.

Nos últimos anos, muitas delas passaram por dificuldades financeiras, como nos relata Jancis Robinson em seu The Oxford Companion to Wine, mas outras tantas se beneficiaram bastante com a contratação de enólogos experimentados do Novo Mundo.

Confira as colunas completas em Vinho Magazine 71


 












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